como alguns amigos meus próximos sabem, eu amo gatos. e eles também sabem sobre a minha teoria sobre os felinos domesticados: também amo cachorros, mas as pessoas só o acham melhor amigo do homem porque é bicho subserviente. o gato não, o gato vem quando quer.
eu tenho um gato bem gordo e branco, com olhos vesgos de tão azuis. e eles tremem. nunca param de tremer. ele perdeu um dos caninos em briga de rua, assim como parte do seu rabo e tem pneumonia. ele tá velho, dá pra ver isso em como ele se move. ele espirra e tosse (acredite ou não).
dormindo que nem um ancião no sofá, ele começa a tossir como que engasgasse. eu me desespero e tento acalmar, fazer carinho… e ele… ele tá calmo. e ainda tosse.
o que eu acho bizarro nesse mundo é que é tudo uma angústia só. tudo é passível de uma espiral eterna, dos pensamentos mais sombrios, de ligações difíceis de aguentar. eu sei disso. eu sinto isso todos os dias da minha vida. meu estômago dói com a fumaça, com a escrotidão, com a convivência comigo mesma. a leveza que eu aparentemente trago no rosto se reflete em uma saúde quase frágil, em um olho tão pequeno pra poder não ver (porque se ele fosse grande o choro ia ser inevitável em todos os momentos).
e o gato branco e velho não se desespera. ele tosse, pode morrer disso. e não se desespera. eu, ser humano imbecil, acabo atrapalhando sua insistente e contínua tentativa de solucionar o problema. a vida fez sentido por um segundo: a Natureza, mesmo que domesticada, não é boa nem má. não é bonita nem feia, desesperada ou alegre. a Natureza só É. percebem? mesmo que quase à morte, ele ficou calmo.
o tempo me faz sentir parte da Natureza. dessa Natureza que não tem nome, nem cor (porque possui todas). a vida é estranha pra cacete, tem mil roda-vivas. mas, olha, a Natureza continua. apesar de apesar de apesar de A PESAR de. ela continua e continua e continua. não tem personalidade, querer, desejo, vontade. é pralém do que a gente consegue conceber. ela passa.
e não há tristeza nenhuma nisso.
me dá um sensação absurda de que estou viva e de que o mundo é maior. o mundo é maior. o cheiro da terra, o pé na areia, a pedra chutada, o sol de inverno, o tato do mar.
e depois disso tudo, o gato velho e branco dorme como uma criança que esconde os olhos porque está muito claro.